Pulgas, alergia à pulgas e controle de pulgas, uma revisão
Candace A. Sousa, DVM.
Dermatology Online Journal 3(2): 7

Traduzido para o português por Dra Vanessa Barcellos Duque Estrada Medeiros, Campinas , SP, Brasil


Figura 1
Ctenocephalides felis felis
Infestações de pulgas em animais domésticos e em ambientes domiciliares são uma ocorrência comum. Pulgas são responsáveis pela produção e transmissão de várias doenças em humanos e seus animais domésticos. A pulga que causa a maior parte dos problemas é a Ctenocephalides felis felis, a pulga comum dos gatos. Em um estudo foi contabilizado 92 0.000000e+00 99% de pulgas encontradas em cães e gatos respectivamente.(1)



A pulga passa por quatro estágios no seu ciclo de vida. Esta sofre uma completa metamorfose a cada estágio.(2) Em qualquer época, aproximadamente 57% das pulgas são ovos, 34ão larvas, 8ão pupa, e somente 1 0.000000e+00stão na fase adulta. Seu ciclo de vida pode durar de 12 a 174 dias e depende da temperatura ambiente e da humidade.(3)

Os ovos de pulga são ovais, branco-perolados, não pegajosos e medem aproximadamente 0.5mm de comprimento.(4) O ovo amadurece de 1 a 10 dias após ser depositado no hospedeiro até ser eliminado no ambiente, dependendo da temperatura ambiente e da humidade (as condições ideais são 70 0e humidade relativa e 35º C).(2-4)

A larva da pulga emerge dos ovos após o período de chocagem. A larva do C. felis felis têm três estágios. A larva tem aproximadamente 2 mm de comprimento, é delgada, branca e é recoberta por pequenos pêlos. Ela se alimenta de restos orgânicos e do sangue de pulgas adultas. As larvas são fotofóbicas (se escondem da luz) e geostáticas (se movimentam em direção ao solo).(2,4) Portanto, em ambientes fechados as larvas evitam a luz direta do sol e se movimentam sob os móveis, utensílios domésticos e entre as fibras de carpete. Em ambientes abertos, elas se dirigem para àreas de sombras sob arbustos, árvores e folhas. São requeridos de 5 a 11 dias para a larva dobrar de tamanho e alcançar 5 mm de comprimento. As larvas são extremamente suscetíveis ao calor e à desidratação. Elas podem sobreviver somente se a humidade relativa estiver acima de 500u quando a humidade do solo estiver entre 1 a 20%.(3) Temperaturas maiores que 35º C e menores que 3ºC por mais de 40 horas por mês são incompatíveis com a vida. A larva madura produz um casulo viscoso onde forma-se pupa. Restos ambientais podem aderir ao casulo e isto ajuda a mantê-lo camuflado e provê uma proteção excelente contra inseticidas. A fase de pupa dura de 5 a 9 dias. Ambientes adequados para um alto índice de sobrevivência das larvas são designados "pontos quentes" ou "pontos de origem".

A fase pré-adulta da larva é o estágio que pode prolongar a longevidade da pulga. Estas podem sobreviver por mais de 140 dias no casulo se protegidas da desidratação. No casulo elas estão também protegidas da maioria dos inseticidas. Pressão física e mudanças na luz, temperatura, e dióxido de carbono podem ser estímulo para o surgimento da pulga adulta. Pulgas recém emergidas do casulo podem sobreviver no ambiente de 10 a 62 dias, novamente dependendo da temperatura e da humidade.(8) Uma vez no hospedeiro, a pulga começa a se alimentar dentro de poucos segundos e se torna então um parasita obrigatório. A higiene do cão é a principal causa de morte dos ectoparasitas. A pulga se alimenta perfurando a pele do hospedeiro e sugando seu sangue. Sua saliva é introduzida através do canal salivar e usada como anticoagulante. A pulga fêmea consome em média 14 microlitros de sangue por dia (equivalente a 15 0e seu peso corporal).(6) Aproximadamente 72 pulgas fêmeas serão necessárias para remover 1 mililitro de sangue por dia. Os machos consomem menos sangue que as fêmeas mas se alimentam com mais frequência.(2) Uma vez que as fêmeas se alimentam e iniciam sua reprodução se tornam dependentes de uma fonte constante de sangue ou morrerão em poucos dias. Durante sua alimentação, as pulgas fêmeas excretam grandes quantidades de sangue digerido em forma de longos tubos espirais ou finos grãos.(2)

O primeiro de múltiplos acasalamentos ocorrem no hospedeiro de 8 a 24 horas. A produção de ovos se inicia dentro de 36 a 48 horas após a primeira alimentação, atinge a produção máxima dentro de 4 a 9 dias, e pode continuar por mais de 100 dias. A produção de ovos é de 40 a 50 ovos por dia em sua fase máxima e mantém a média de 27 ovos por dia pelos primeiros 50 dias. Uma pulga fêmea pode depositar aproximadamente 2000 ovos durante sua vida.(4,7)

A dermatite alérgica por pulgas (DAP) é a doença dermatológica veterinária mais comum no mundo. Ela se inicia com a picada de uma pulga. A saliva da pulga contém aminoácidos, compostos aromáticos, materiais fluorescentes, polipeptídeos, e fósforo.(9) No cão as substâncias antigênicas têm um peso molecular de 18,000 a 45,000 daltons com o principal alergeno de MW 30,000 a 32,000 daltons.(10) Os principais sinais de prurido notados pelo dono do cão são a coçadura, a lambedura, a mordida e a mastigação entre outros. Sessenta e um por cento dos cães alérgicos à pulgas desenvolvem sinais clínicos entre 1 e 3 anos de idade.(11) À medida que o cão envelhece, com a exposição contínua às pulgas, o grau de hipersensibilidade pode diminuir. DAP é incomum em cães menores de 6 meses de vida. Estes usualmente apresentam pápulas, crostas, manchas de saliva, escoriações, e eritema em forma de cunha na região lombo-sacra, coxas, região proximal do rabo, região abdominal e peri-umbilical. Com a coceira crônica as áreas se tornam alopécicas, liquenificadas, e hiperpigmentadas e o cão desenvolve um odor relacionado à infecções secundárias por Staphylococcus intermedius e Malassezia pachydermatis.

Figura 2
O diagnóstico da DAP é baseado no início do prurido, na distribuição do prurido e dos sinais clínicos, e na observação da presença de pulgas. Muitos cães que são alérgicos à picadas de pulgas têm muito poucas pulgas em qualquer época devido sua excessiva atividade higiênica que as remove. Alguns deles terão infestação recorrente por tênia (Diplydium caninum) através da ingestão das pulgas. O diagnóstico da DAP pode ser confirmado através de teste intradérmico com a ntígenos de pulgas.

Figure 2: Flea allergy resulting in scratching and severe alopecia.

Os objetivos do controle de pulgas são eliminar as pulgas adultas em todos os animais da casa tanto quanto pulgas imaturas no ambiente. O melhor método abrange medidas mecânicas, físicas e químicas. Pontos de origem devem ser identificados e tratados agressivamente. Carpetes, cama de animais e áreas de repouso na casa devem ser muito bem aspiradas usando um aspirador potente. A cama do animal deve ser lavada . Vegetação morta deve ser retirada das áreas de repouso dos animais. Existe uma grande variedade de produtos químicos que podem ser usados no ambiente e nos animais e cada um tem sua indicação específica. Não existe nenhum produto único ou miraculoso.

Os produtos mais parecidos com os inseticidas naturais são os produtos botânicos. Piretrinas são derivadas de uma certa espécie de flor da planta piretro. Existem seis piretrinas naturalmente ocorrentes. Elas causam um efeito tóxico mínimo em mamíferos (oral LD50 em ratos = 1.500mg/kg peso corpóreo). (12) Sendo que as piretrinas são instáveis na presença de luz ultra-violeta, umidade, e ar, a maior parte delas são encontradas combinadas com sinérgicos (ex. butóxido de piperonil) que inibem a degradação oxidativa e hidrolítica dos componentes. Piretróides são inseticidas sintéticos derivados da estrutura molecular ou compartilham o mesmo mecanismo de ação das piretrinas. Eles são mais estáveis que as piretrinas mas são levemente mais tóxicos. O mecanismo de ação dos piretróides é baseado em mudanças na conduta dos íons, principalmente através do atraso no fechamento da bomba de sódio das celulas nervosas.(13) A Rotetona é um extrato das raízes de plantas como Derris e possui dois componentes ativos. É levemente mais tóxica que as piretrinas e é extremamente tóxica aos peixes. (12) É seguro o uso da rotetona em animais pequenos embora não usada em muitos produtos. D-limoneno e linalool são derivados da polpa de plantas do gênero Citrus. Estes têm uma ação solvente nos lipídeos da epiderme do exoesqueleto da pulga que resulta em desidratação e morte da pulga.(14) Eles são relativamente efetivos mas de ação muito rápida e têm sido relatadas reações aversas severas em gatos.

Os Carbamatos (carbaril, propoxur) e organofosforados (malation, fention, diazanon, ronnel, etc.) são inibidores da colinesterase. Eles agem principalmente como adulticidas mas são potencialmente muito tóxicos para os animais, particularmente nos gatos e filhotes. Estes ingredientes são encontrados numa variedade de formulações farmacêuticas para uso em animais e no meio ambiente. Cytioato e fention são também formulados como inseticidas sistêmicos.

"Imidacloprid" (Advantage TM, Bayer) é um inseticida tópico para pulgas que age se ligando à receptores nicotinérgicos no sistema nervoso do inseto. Alega-se que a maioria das pulgas são mortas em 24 horas, antes que tenham a chance de deixar ovos. É usado em forma de soluções concentradas diretamente no animal uma vez ao mês e é muito seguro para ser usado em mamíferos porém pode ser lavado e retirado durante o banho do animal o que diminui sua eficácia.

"Fipronil" (Frontline®, Rhone Merieux) é outro inseticida tópico para pulgas que é encontrado na apresentação de spray ou de emulsão. É uma fenilpirazolona e age bloqueando a passagem de íons cloro através dos canais de cloro regulados pelo GABA. É altamente específico para os invertebrados. Cem por cento das pulgas adultas são mortas em 24 horas. Uma vez usado o produto este continuará fazendo efeito por mais de 3 meses e desde que o ingrediente ativo é incorporado nas glândulas sebáceas, após 48 horas o animal pode ser banhado tão frequentemente quanto preciso sem afetar a eficácia do produto.

O Poliborato de sódio (SPB) é um pó que é usado no ambiente domiciliar para interromper o ciclo de vida da pulga. Acredita-se que a larva da pulga ingere o pó e é morta antes que possa entrar na fase de pupa. A eliminação de pulgas no ambiente domiciliar pode demorar de 3 a 6 semanas. SPB tem uma alta margem de segurança entre os mamíferos (oral LD50 em ratos = 3,479 mg/kg.) Reguladores de crescimento de insetos (IGR's) ("methoprene", "fenoxycarb", "pyriproxyfen") mimetizam o hormônio juvenil que a larva da pulga produz durante a fase de pupa. Quando o ovo e a larva estão expostos à esse hormônio, o ovo não se chocará e a larva não entrará na fase de pupa. Esses produtos não têm ação nenhuma em animais domésticos e humanos desde que esses hormônios são específicos para insetos. (oral LD50 em cães para o "methoprene" = 5,000 - 10,000 mg/kg; oral LD50 para o "fenoxycarb"em ratos = 16,000 mg/kg).

Inibidores de crescimento de insetos (IDI's) (Iufenuron, Program, Novartis Animal Health) atuam de forma a impedir que a larva da pulga saia do ovo. O produto é ingerido pelos animais uma vez ao mês e armazenado nos depósitos de gordura dos animais. O produto é lentamente liberado pelos tecidos permitindo a manutenção do nível sérico efetivo da droga por algumas semanas após sua administração. A pulga fêmea ingere o produto enquanto se alimenta do sangue do animal e a droga se incorpora ao ovo da pulga. Esses produtos não matam a pulga adulta. Não existem contraindicações conhecidas ou efeitos adversos em mamíferos e a droga é bem segura (oral LD50 em ratos > 2,000 mg/kg.)

Existem muitas formulações para o uso de inseticidas em animais domésticos. Shampoos agem removendo mecanicamente as pulgas mas como são enxaguados têm uma ação mínima residual. Esse problema com o controle residual de pulgas pode ser superado usando uma ultima lavagem contendo um produto com inseticida (submergindo o cão nesta solução). Muitos sprays para pulgas contém alcool e matam rapidamente as pulgas adultas. Infelizmente a maioria contém piretrinas e a menos que o produto químico esteja microencapsulado sua ação será menor do que 1 dia. Pós, espumas, soluções concentradas, e coleiras estão disponíveis contendo uma variedade de produtos químicos e vários desses produtos são vendidos em formulações orais.

No ambiente domiciliar, o spray de mão aplicado tanto por um profissional com pelo dono é o método preferido de aplicação dos produtos químicos. Isto possibilita ao produto ser aplicado diretamente nas áreas de mais foco (pontos de origem). Os móveis grandes devem ser removidos para assegurarmos de que o spray irá atingir as áreas de migração das larvas.

Nas áreas livres os sprays são muito úteis e sua aplicação deve ser concentrada nas áreas frequentadas pelos animais, especialmente as que têm sombras, temperatura amena e contém substâncias orgânicas.

Referências

1. Harman DW, Halliwell REW, et al. Flea species from dogs and cats in north-central Florida. Vet Parasitol 1987;23:135-40

2. Dryden MW. Biology of fleas of dogs and cats. Comp Cont Ed 1993;15:569-579

3. Silverman J, Rust MK. Some abiotic factors affecting the survival of the cat flea, Ctenocephalides felis (Siphonaptera:Pulicidae). Environ Entomol 1983;12:490-5

4. Dryden MW. Biology of the cat flea, Ctenocephalides felis felis. Comp Anim Prac 1989;19:23-7

5. Kettle DS. Siphonaptera (fleas). In: Medical and veterinary entomology. New York:Wiley, 1982:293-312

6. Dryden MW, Gaafar SM. Blood consumption by the cat flea, Ctenocephalides felis (Siphonaptera:Pulicidae). J Med Entomol 1991;29:394- 400

7. Dryden MW. Host association, on-host longevity and egg production of Ctenocephalides felis felis. Vet Parasitol 1989;34:117-22

8. Silverman J, Rust MK. Extended longevity of the pre-emerged adult cat flea (Siphonaptera:Pulicidae) and factors stimulating emergence from the pupal cocoon. Ann Entomol Soc Am 1985;78:763-8

9. Young JD, et al. Allergy to flea bites. V. Preliminary results of fractionation, characterization, and assay for allergy activity of material derived from the oral secretion of the cat flea, Ctenocephalides felis felis (Bouche). Exp Parasitol 1963;13:143-54

10. Halliwell REW. Clinical and immunological aspects of allergic skin disease in domestic animals. In: Advances in veterinary dermatology. London:Bailliere Tindall, 1990;1:106-12

11. Nesbitt GH, Schmitz JA. Fleabite allergic dermatitis: a review and survey of 330 cases. J Am Vet Med Assoc 1978;173:282-8

12. Matsumura F. Toxicity of insecticides. 2nd edition. New York:Plenum Press, 1985

13. Valentine WM. Pyrethrin and pyrethroid insecticides. In: Veterinary clinics of North America. Philadelphia: WB Saunders, 1990:375-82

14. Schick MP, Schick RO. Understanding and implementing safe and effective flea control. J Am Anim Hosp Assoc 1986;22:421-34