(11c) Skin Cap: O que aprendemos, e quando foi que aprendemos?

Traduzido para o português por George Barros Leal, Fortaleza, Brasil


Skin Cap Spray é um medicamento que dispensa prescrição médica que apareceu no mercado da América do Norte em 1995. Contem piritionato de zinco e muitos outros produtos químicos. Permitiu-se vender o Skin Cap sem prescrição porque afirmava-se que seu ingrediente ativo era o piritionato de zinco, originalmente liberado para venda sem prescrição na base de produtos de aplicar/enxaguar tais quais xampus no tratamento da caspa e dermatite seborreica. Não há nenhuma informação publicada sobre a segurança do piritionato de zinco no regime aplicar/deixar permanecer.


Iniciando em 1995 na América do Norte Skin Cap tornou-se bastante popular no meio dos psoriáticos porque demonstrou ser geralmente útil enquanto outros tratamentos, inclusive corticosteroides tópicos, haviam sido ineficazes. Os dermatologistas ficaram muito impressionados com os resultados e com a aparente segurança, e muitos dermatologistas passaram a recomendar Skin Cap para seus pacientes, sendo que ate alguns passaram a vendê-los aos seus pacientes. Skin Cap Spray também passou a ser vendido através de encomenda postal, através de números 1-800 (ligaçao gratuita), e em algumas cadeias de farmacias.

O historico do Skin Cap revelado para muitos dermatologistas e para muitos pacientes na internet, notavelmente na lista de discussão RxDerm-L direcionada para dermatologistas, e no newsgroups para psoriaticos alt.support.psoriasis . Aqueles que monitorizaram estas fontes de informação ( e ocasionalmente "não informação" e "entusiasmo em-vão" constituiram-se nos primeiros a despertarem para o Skin Cap, e tambem tornaram-se os primeiros a ter conhecimento dos problemas potenciais do Skin Cap.

Dermatologistas perceberam que o Skin Cap surgiu como um muito potente anti inflamatório de largo espectro, e relatos da eficacia do Skin Cap na abordagem de doenças inflamatórias recalcitrantes como lupus discoide, dermatomiosite e liquen plano foram expostos na lista de discussão RxDerm-L.

Excetuando-se relatos ocasionais de irritação cutânea após exposição ao Skin Cap, ou exacerbações explosivas de psoríase quando Skin Cap era suspenso, não apareceram relatos de problemas com o Skin Cap.

Em 1996 começou a circular informação de que algumas jurisdições na Europa ( notavelmente na Austria e Holanda) haviam encontrado corticosteroides ( proprionato de clobetasol ou triamcinolona) no spray, e haviam banidos o Skin Cap por tal razão.

Em julho de 1997 amostras do Skin Cap spray vendidas na América do Norte foram desmascaradas por muitos laboratórios excelentes , incluindo a Mayo Clinic e Glaxo Inc. usando "cromatografia líquida de alta precisão", que revelaram conter o produto proprionato de clobetasol. Este achado foi sofreu protesto por parte de Cheminova Inc, o fabricante do Skin Cap. O laboratorio Cheminova havia negado a existencia de corticosteroides no Skin Cap, e emitiu parecer que quando o Skin Cap 'e analizado atrav'es do teste espectrometro de massa MALDI-TOF, demonstra-se que o Skin Cap contem um produto quimico que 'e confundido com - sem ser exatamente a mesma coisa - o proprionato de clobetasol , a cromatografia liquida de alta performance.

Qualquer que venha a ser o resultado da pesquisa de corticosteroides no Skin Cap, positivo ou negativo, a verdade 'e que este episodio tem servido para relembrar alguns principios basicos a comunidade dermatologica:

  • Nos somos responsaveis pelas consequencias do aconselhamento dado aos nossos pacientes.
  • Nossos pacientes nos veem como " intermediarios informados" e expectam que nos assessemos os riscos e beneficios das terapias que sugerimos.
  • Esiste uma lista basica de questoes que se aplicam as teratpias propostas. Mesmo que nem todas questoes sejam adequadamente respondidas enfocando determinada terapeutica, tais questoes prestam-se como util perfil para problemas potenciais e para itens que devem ser considerados:
    1. Qual 'e o mecanismo de a'cao para a terapia proposta? " Como 'e que esta coisa funciona?" Quando consideramos o mecanismo de a'cao proposto, algumas vezes 'e possivel predizer respostas a terapeutica, riscos potenciais e interacoes adversas ou beneficiais com outras formas de terapia.
    2. Que produtos quimicos encontram-se neste remedio, alem do ingrediente ativo? Cerots produtos, por exemplo o etanol ou lactose ( para nao se falar do propionato de clobetasol!) podem causar problemas em alguns pacientes. Por tal razao uma completa apresentacao de todos os ingredientes em uma medicacao tem sido mandatorio nos ultimo s 30 anos na america do Norte. A colocacao que existem " ingredientes secretos" deveria levantar a suspeita que o fabricante acha-se violando alguma lei, ou pelo menos provavelmente incluindo algo que um medico possa achar questionavel. De forma pratica, nao ha nenhum produto de prescricao ou de venda livre (com a notavel excecao do Skin Cap) vendido na America do Norte para o qual uma completa lista de todos os ingredientes ativos e " inativos" nao se encontre prontamente disponivel fornecida pelo fabricante.
    3. Que problemas tem sido encontrados em estudos animais tendo em vista este produto? A ausencia de informacoes a partitr de estudos em animais deveriam levantar o questionamento que nossos pacientes acabarao fazendo o papel outrora reservado para animais cobaias.
    4. Existe alguma classe de pacientes ( tipo criancas, gravidas ou idosos) que nao deveria usar este remedio?
    5. Existem algumas partes do corpo onde este remedio deveria ter sua aplicacao evitada?
    6. Existe algum limite de seguranca quanto a duracao de tempo de utilizacao deste medicamento?
    7. Existe algum limite maximo levando em conta a quantidade de medicamento que pode ser usada todo dia, ou um limite de dose total maxima a que o paciente possa ser exposto?
    8. Existe algum grupo de pacientes que estejam em risco aumentado para complicacoes, por exemplo devido a terapias previas ou atuais ( exemplo radioterapia ou tratamento a base de luz ultravioleta)?
    9. Existiria alguma outra terapia que complementasse este tratamento e talvez possa ser utilizado para reduzir os riscos de complicacoes?
    10. Que tipo de monitoracao e seguimento sao necessarios para que se proporcione um tratamento seguro?
    O que aprendemos a partir de nossa experiencia com o Skin Cap? Fomos todos relembrados a respeito de todos os pontos acima discutidos. Quando fo que aprendemos as coisas acima listadas? Nos aprendemos a perguntar estas questoes durante o curso de farmacologia basica, no primeiro ou segundo ano de faculdade de medicina. A lista de questionamentos basicos evoluiram nos ultimos 150 anos, levando em conta que a profissao medica e a industria farmaceutica desenvolveu habilidade para usar agentes farmacologicos de forma otimizada, a ponto de criar beneficios maximos aos pacientes juntamente com os menores riscos. Temos aprendido as custas de ardua experiencia , e as vezes de forma custosa aos nossos pacientes, que geralmente as terapias que sao muito potentes usualmente tambem causam problemas serios sob algumas circunstancias. E uma felicidade (para nossos pacientes e para nos) que a distribuicao do Skin Cap - aparentemente um extremamente potente antiinflamatorio de largo espectro - tenha sido sustada antes que algum dano serio viessa a acontecer . Quando as questoes acima tiverem sido apropriadamente enderecadas,o Skin Cap (ou um produto similar a este) pode ter encontrado um uso apropriado dentro da Dermatologia.

    Em nosso entusiamo para com uma terapia nova e aparentemente eficaz que ajudou alguns de nossos mais desesperados pacientes nos esquecemos de perguntar as questoes aprendidas no inicio da faculdade de medicina. Quando falhamos em nao colocar tais questoes - quando falhamos em submeter o Skin Cap as mesmas exigencias que ja se tornaram rotina para medicamentos prescritos - falhamos na nossa atuacao como " intermediario informado" , um papel vital que nossos pacientes esperam que exer'camos.

    Tambem aprendemos que a Internet facilita a disseminacao de experiencias clinicas de maneira muita eficaz, mas sem a devida guarda exercida pelos jornais com pareceiristas. Numa lista de discussao como o RxDerm-L esta falta de parecer 'e de alguma forma compensada por feedback a partir de outros membros da lista, e membros do RxDerm tiveram a vantagem de estarem entre os primeiros dermatologistas a ser expostos aos comentarios negativos e questionamentos sobre o Skin Cap.

    KC Smith MD FRCPC

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