(11d) Psoríase Pustular e Hepatotoxicidade associada com uso de Spray para couro cabeludo

Traduzido para o português por Dra Flávia Senapeschi Garita, Campinas, SP, Brasil


O spray para couro cabeludo (Cheminova Intl, Espanha - Madrid) é uma preparação tópica contendo zinco a qual se tornou recentemente útil na América do Norte para o tratamento da seborréia e psoríase. Muitos relatos em literatura sugerem que esta preparação é altamente efetiva no tratamento da psoríase (1-3). Não houveram reações adversas durante o uso do spray para couro cabeludo na literatura americana. Este caso descreve um paciente no qual o uso do spray para tratamento de psoríase vulgar tipo placa foi associada com psoríase pustular e hepatotoxidade.


Figura 1Figura 2

Figuras 1 e 2 : Psoríase pustular em palmas e dorsos das mãos 3 dias após início do uso do spray.

Um homem de 53 anos com história de psoríase tipo placa estável crônica apresentando-se com aumento de eritema, enduração e pustulas em mãos, abdomem e coxas, 3 dias após o início do uso do spray para couro cabeludo. Ele também notou escurecimento da urina e fadiga. Não estava em uso de qualquer outro medicamento e não tinha história clínica antecedente que contribuísse. Em particular, negou história pregressa de hepatite ou psoríase pustular. Uma revisão dos sistemas revelou ingestão alcóolica de 2 a 3 garrafas de cerveja por semana e 1 a 2 copos de vinho por noite diariamente. Ele negou história recente de infecção de trato respiratório superior, sintomas gripais ou ingestão de frutos do mar. Ele não tinha história pregressa de dermatite de contato alérgica a nenhum medicamento tópico ou shampoos. Descontinuou uso do spray para couro cabeludo no 4º dia e foi avaliado 5 dias após. O exame físico revelou sinais eritematosos com micropústulas dispersas em mãos (veja figura), antebraços, abdomem e parte superior das coxas envolvendo aproximadamente 15% da superfície corporea total. Ele estava febril e não foi notado sinal de icterícia na esclera.

Investigações laboratoriais revelaram AST 165 (níveis de referência <37) U/L, ALP 183 (níveis de referência 50-130) U/L, bilirrubina total de 19,4 (<18) U/L. Sorologia para hepatites A,B e C foram negativas assim como o ANA (anticorpo antinuclear) e o ENA (antígeno nuclear extraído). O manuseio do caso consiste em compressas frias e pomada de propionato de halobetosol. No 10º dia de seguimento, melhora significativa com redução do eritema pustular foi notada acompanhada de normalização dos testes de função hepática. O paciente recusou-se a repetir a aplicação do spray para fazer teste de contato. Não foram realizados testes de contato com ingredientes individuais do spray.

Discussão

O spray para couro cabeludo é uma preparação tópica contendo zinco PYRITHIONE (0,2 %), sulfato de etil metil sódio (0,01 %), MYRISTATE isopropil, álcool e isobutano. Destes ingredientes, o lauril sulfato de sódio e o álcool são potenciais irritantes e alergenos ocasionais enquanto o zinco PYRITHIONE e o isopropil MYRISTATE são raros alergenos de contato. O lauril sulfato de sódio, um agente emulsificante, pode aumentar a penetração percutânea das outras substâncias incluindo outros potenciais irritantes e alergenos. O álcool tem sido incluído em dermatites de contato sistêmicas aonde a ingestão de álcool por indivíduos sensibilizados por contato externo pode levar a extenso eczematização (4). Além disso, o álcool é um conhecido hepatotóxico e um fator agravante potencial na psoríase.

A associação temporária do uso do spray e o desenvolvimento de psoríase pustular acompanhada de sintomas e evidencias laboratoriais de hepatotoxidade sugere uma provável ligação desses eventos. Contra o antepassado da ingestão alcoólica pré existente neste paciente, existe a possibilidade de que o álcool adicional contido no spray pode ter diretamente precipitado a psoríase pustular e a hepatotoxidade neste paciente. Alternativamente, um ingrediente do spray pode ter resultado em sensibilização tópica resultando em um Koebner sistematizado com subsequente aparecimento da psoríase pustular e a hepatotoxidade.

Este caso serve para ilustrar a importância da manutenção de vigilância para a possibilidade de desenvolvimento de efeitos adversos em preparações as quais os pacientes podem não serem advertidos sobre riscos adversos. No caso do spray, alertar o paciente sobre a possibilidade desta reação adversa e orientar sobre interação com ingestão de álcool é apropriado.

Jerry K. L. Tan, MD, FRCP

References 1. Gallego H. Letter 111. Dr. Gallego Adds. Schoch Letter 1997; 47:26.

2. Crutchfield CE, Lewis EJ, Zelickson BD. The Effective Use of Topical Zinc Pyrithione in the Treatment of Psoriasis: A Report of Three Cases. J Geriatr Dermatol 1997; 5:21-4.

3. Shelley WB, Shelley ED. Portrait of a Practice. Cutis 1997;59:181-2.

4. Fisher AA. Contact Dermatitis. Philadelphia: Lea-Febiger; 1986.